Bisley, Inglaterra, 12 de agosto de 2026. O campo de tiro mais tradicional do planeta recebe o Campeonato Mundial de F-Class: na prova de 800 jardas da classe F-T/R, são 205 atiradores de todos os continentes, cada um com quinze disparos para provar quem é o melhor do mundo. No meio deles, um brasileiro. Quando a última série termina e a planilha fecha, o nome no topo é Duliano Gomes de Souza. Campeão mundial. Feito inédito para o Brasil no F-Class.
E a história não termina nele. Dias depois, a equipe Brazil Long Shot cravou um quinto lugar inédito na prova de equipes, colocando o Brasil entre as cinco melhores forças do planeta na modalidade, com Ismael Alexandrino num papel que pouca gente conhece e que eu vou te explicar já já, porque é uma das funções mais bonitas do tiro esportivo.
Mas antes, deixa eu te contar que modalidade é essa.
O que é o F-Class?
O F-Class é o tiro de precisão a longa distância. E quando eu digo longa, é longa de verdade: os alvos ficam a 800, 900 e 1.000 jardas. Uma jarda tem mais ou menos 90 centímetros, então estamos falando de quase um quilômetro. Nove campos de futebol enfileirados. E o objetivo não é só acertar o alvo: é acertar o centro do centro dele, uma região do tamanho de uma laranja, tiro após tiro, com o vento fazendo o possível para atrapalhar.
O atirador fica deitado, com o rifle apoiado num bipé ou num descanso, olhando por uma luneta. Existem duas classes principais. Na F-T/R, todo mundo usa os mesmos dois calibres permitidos, o .223 e o .308. É a classe da consistência: com equipamento parecido, vence quem lê melhor as condições. Foi nela que o Duliano virou campeão mundial. Já na F-Open as regras são mais livres, e ela funciona como o laboratório da modalidade, onde nascem os cartuchos e as técnicas que depois todo mundo copia.
A história do "F": o veterano que não aceitou parar
Nos anos 1990, no Canadá, um atirador veterano chamado George Farquharson enfrentava o problema que chega para todo atleta: o corpo já não acompanhava. A vista não dava mais conta da mira aberta, a posição sem apoio castigava. Pela lógica, era hora de pendurar o rifle.
Ele não pendurou. Propôs uma categoria em que se pudesse usar luneta e apoiar a arma. Deram à categoria a letra do sobrenome dele, F de Farquharson, e o que nasceu como jeito de veterano continuar competindo virou uma das modalidades que mais crescem no mundo, com mundial organizado desde os anos 2000. Eu acho essa origem linda: o F-Class existe porque um teimoso se recusou a parar de atirar.
E tem mais um detalhe de arrepiar. O mundial de 2026 foi disputado em Bisley, complexo criado no século XIX que recebeu o tiro dos Jogos Olímpicos de 1908. É o Maracanã da modalidade. Ganhar lá é ganhar dentro da casa dos ingleses, no gramado sagrado deles.
Três comparações para você sentir o tamanho disso
É a Fórmula 1 do tiro. Como nos tempos do Senna, o piloto é metade da equação. A outra metade é a máquina no limite da engenharia: cano selecionado, projétil escolhido a dedo e munição desenvolvida grão a grão de pólvora para aquele rifle específico. Não existe pódio de F-Class com munição comprada pronta na prateleira. A recarga é a engenharia de pista da modalidade.
É surf de vento. A quase um quilômetro, uma brisa lateral de poucos km/h joga o projétil dezenas de centímetros para o lado. O atirador lê bandeiras e até a tremulação do ar quente sobre o campo, do mesmo jeito que o Medina lê o mar antes de remar para a onda. Só que a janela para decidir e puxar o gatilho dura segundos.
E é sinuca de quinze tacadas. Não adianta dar uma tacada genial e errar a seguinte. São séries longas em que um único tiro fora do centro entrega a mesa para o adversário. O verdadeiro oponente é a própria consistência.
O tamanho da façanha, em números que fazem sentido
No F-Class, cada tiro no alvo vale até 5 pontos. Dentro da região dos 5 pontos existe um círculo menor ainda, o centro do centro, que os atiradores chamam de mosca. A mosca serve de desempate: entre dois atiradores com a mesma pontuação, vence quem acertou mais moscas.
Agora olha o cartão do Duliano nas 800 jardas: quinze tiros, 75 pontos, ou seja, nota máxima em todos. E 13 moscas em 15 tiros possíveis. O americano Ian Klemm e o italiano Giuseppe Cavallo também gabaritaram os 75 pontos, mas com 12 moscas cada. O título mundial foi decidido por uma mosca. Uma laranja a 730 metros de distância separou o ouro da prata, contra 205 dos melhores do planeta.
Ismael Alexandrino: o copiloto do quinto lugar inédito
Na prova de equipes veio a segunda conquista, e ela me permite te apresentar a função mais desconhecida do tiro esportivo: o coach de vento.
Na disputa por equipes, o atirador não decide sozinho. Quem lê o vento e dita a correção antes de cada disparo é o técnico, como um copiloto de rally cantando a curva antes de ela aparecer: "dois cliques de vento à esquerda, agora". O atirador confia e executa. Cada ponto passa primeiro pela decisão do coach.
O copiloto da Brazil Long Shot foi o Ismael Alexandrino, campeão brasileiro de Mid Range 600 jardas em 2023. Sob a leitura dele, a equipe somou 292 pontos e 31 moscas nas 800 jardas, 281 pontos e 21 moscas nas 900, e 261 pontos e 12 moscas nas 1.000, fechando em quinto lugar no mundo, o melhor resultado de uma equipe brasileira na história da modalidade. No individual o atirador vence sozinho. Em equipe, cada mosca tem dois donos.
E essa conquista tem nome e sobrenome, seis vezes:
- Duliano Gomes de Souza: o campeão mundial das 800 jardas foi também o motor da equipe: gabaritou 75 pontos com 10 moscas nas 800 e ainda fez a melhor série do time nas 900.
- Moacyr Lages: o homem das longas. Melhor pontuação da equipe nas 1.000 jardas, exatamente onde o vento cobra mais caro e cada decisão pesa dobrado.
- Luis Campos: capitão e atirador ao mesmo tempo: comandou a equipe e ainda entregou séries sólidas nas três distâncias, com destaque para as 900 jardas.
- Olney Mazer: vice-capitão e atirador, dono da segunda melhor série da equipe nas 800 jardas, com 74 pontos e 7 moscas.
- Kleber Khayat: adjunto da equipe e o representante do Brasil na classe F-Open do mundial, a categoria laboratório da modalidade.
- Ismael Alexandrino: o coach, o cérebro por trás de cada correção que levou disparos ao centro.
Por que isso importa para o nosso esporte
Uma vitória dessas não é só medalha. É a prova de que o atirador brasileiro, treinando em estâncias nacionais e desenvolvendo a própria munição, compete de igual para igual com países que têm décadas de estrutura, como Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. É combustível para os clubes, para a nova geração de atiradores desportivos e para o reconhecimento do tiro como esporte de alto rendimento que é.
E aqui vai a lição que a gente vive todos os dias na bancada: não existe F-Class sem recarga. Cada uma daquelas moscas nasceu muito antes do dia da prova. Nasceu na seleção dos estojos, na dosagem da pólvora, no assentamento perfeito do projétil. A prensa é tão parte da conquista quanto o gatilho.
Parabéns, Duliano, Moacyr, Luis, Olney, Kleber e Ismael. Parabéns a toda a delegação brasileira em Bisley. Vocês mostraram ao mundo o que o tiro esportivo brasileiro sabe fazer.
Atire, recarregue, repita.
Diogo Machado
Autor do Manual da Recarga de Munições
Fontes: Confederação Brasileira de Tiro Esportivo (CBTE), resultados oficiais do 7º F-Class World Championships publicados pela NRA do Reino Unido (nra.org.uk) e boletim da equipe Brazil Long Shot em Bisley.